sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Malagueta




Moro nos montes. Da minha piscina eu avisto a catedral. 1782 ela foi inaugurada. Pro centro da cidade tem um ônibus por dia, mas dá pra ir a pé, meia hora de descida. Pra voltar, também chega, subiendo, subiendo.

Abro a janela de manhã logo depois de alguém me dar “Buenos días”. Não faço esforço algum, só aperto um botão e a escuridão do quarto desaparece. No meio da sala espaçosa, a lareira, imponente, que nunca acendi neste um ano que estive aqui. Meu desjejum é madalena, pão com azeite e café preto. Aqui todo mundo se espanta porque não tomo com leite, “café solo”, puro, porque sou brasileira. Quando tô muito animada, “bajo a por churros” (desço para comprar churros), que aqui não são recheados com doce de leite, apenas uma massa fina, deliciosa e crocante, “crujiente”, que falar assim dá mais água na boca. Preparo um chocolate quente da marca Palladium, que ontem comprei no supermercado El Día. Estou feliz. Abro a gramática, lección 6Pretérito Pluscuamperfecto del Subjuntivo, conjugo os verbos em voz alta e mergulho um churro no chocolate. Faço com facilidade todos os exercícios e limpo o resto do azeite do prato com o último pedacinho de pão.

Agora faz 37ºC e a cidade fervilha. Tem noite animada de 2ª a 2ª, chupitos a 1 euro. Já me embebedei uma vez, acho que tomei oito, e acordei sozinha numa cama numa varanda e quando saí na rua, sol ofuscante, sem óculos escuros e meia calça desfiada, lembrei do marroquino sedutor e lindo dizendo na noite anterior que eu estava “hecho un bombón” e sorri envaidecida. Não tinha a menor ideia de onde estava e tomei um táxi pra casa. Vomitei o dia inteiro e me veio outra lembrança da noite anterior: um ucraniano cantando Tom Zé pra mim na sarjeta, meu cabelo amarrado que alguém amarrou pra não sujar de vômito. Que noite! Logo eu melhoro.

Dia seguinte, Malagueta. Todo mundo de toalha, eu estirada na canga com meu biquininho brasileiro, calcinha e sutiã, as europeias sem top, topless. Não consigo, tô aqui, não conheço ninguém, mas não tiro meu sutiã! Passo o protetor solar fator 30. Os alemães de férias torrando ao sol ficam assustadíssimos. Eu, a morena brasileira, me untando, precisa? Precisa, de onde eu venho tem sol todo dia, se não me cuido, arrisca ter câncer de pele, “toca madera”, 1, 2, 3! E eles não entendem muito bem o que eu digo porque estão na turma do espanhol básico. Aprendo a falar “demasiado”, a italiana guapa da minha sala usa muito essa palavra e eu gosto. Porque na juventude tudo é demais, “demasiado” intenso, tudo.

Falamos sobre Picasso, Antonio Banderas, e María Barranco, una chica Almodóvar. Falamos de semana santa, flamenco y castañuelas, comemos boquerones fritos, é típico e delicioso, e à noite, bebemos tinto de verano porque ¡hace calor, hace calor! e às vezes dão de cortesia como chamariz pr´aquele bar. Hoje o professor levou figos na aula, ele colheu no seu sítio, “en su finca”, así se dice en español, nunca tinha visto um higo em pessoa, só em caldas, na lata, que nunca gostei, sempre tinha em casa, meus pais. Mas esse eu comi, era doce, pequeno, suculento, gostosa novidade. E agora? Que fome estou, tudo fechado, siesta¡Joder!, não me acostumo. Boto umas moedas na máquina e um saco de batatas cai. É o que temos pra hoje, a dose de sódio diária extrapolada nesse pacotinho, “demasiada sal”, sim, sal no espanhol é no feminino. ¡Olé, salud! Menos mal que a Plaza de Toros está desativada. No me gustan las toradas, pero amo essa cidade! Málaga de mi corazón


*Este texto é fruto da oficina de escrita criativa, "Terapia da Palavra"

Outro texto dessa época malagueña aqui!

Um comentário: